René Magritte pintando-se [topo] Imagem meramente ilustrativa.

O universal e o particular na Arte

Para Schiller, o estilo perfeito em cada arte é conferir-lhe um caráter universal pela sábia utilização de sua particularidade.

Livro: A educação Estética do Homem, de Schiller.Friedrich
Schiller

“A educação estética do homem”

Como na realidade é impossível encontrar um efeito estético puro (pois o homem não pode escapar à dependência das forças), a excelência de uma obra de arte pode apenas consistir em sua maior aproximação daquele Ideal de pureza estética e, pro grande que seja a liberdade alcançada, sempre iremos abandoná-la com uma disposição e uma direção particular. Quanto mais geral for esta disposição e quanto menos limitada for a direção que um determinado gênero de arte e um produto particular dele dão a nossa mente, tanto mais nobre será aquele gênero e tanto mais excelente será tal produto. Isso pode ser experimentado em obras de diversas artes e em diversas obras da mesma arte. Deixamos uma bela peça musical com a sensibilidade estimulada, o belo poema com a imaginação vivificada, e o belo quadro ou edifício com o entendimento desperto; mas quem quisesse convidar-nos ao pensamento abstrato imediatamente após uma alta fruição musical; utilizar-nos para um negócio comedido da vida comum, logo após uma alta fruição poética; afoguear nossa imaginação e surpreender nosso sentimento, logo após contemplarmos belas telas e esculturas, não teria escolhido a hora certa. Assim é porque, por sua matéria, mesmo a música mais espiritual está sempre numa maior afinidade com os sentidos que a suportada pela verdadeira liberdade estética; porque o mais bem-sucedido dos poemas sempre participa do jogo arbitrário e contingente da imaginação, como o seu meio, mais do que permite a necessidade interna do verdadeiramente belo; porque o quadro mais excelente, e talvez este mais do que os outros, toca os limites da ciência mais séria pela determinação de seu conceito. Estas afinidades particulares perdem-se, contudo, a cada grau mais alto que uma obra de qualquer destas três espécies alcance, e é uma consequência necessária e natural de seu aperfeiçoamento que as diferentes artes se aproximem cada vez mais uma das outras em seu efeito sobre a mente, sem que percam seu limites objetivos. Em seu enobrecimento supremo, a música tem de tornar-se forma e atuar sobre nós com o calmo poder da Antiguidade; em sua perfeição suprema, as artes plásticas têm de tornar-se música e comover-nos pela presença imediata e sensível; em seu desenvolvimento máximo, a poesia tem de prender-nos poderosamente, como a arte dos sons, mas ao mesmo tempo envolver-nos com serena clareza, como as artes plásticas. O estilo perfeito em cada arte revela-se no fato de que saiba afastar as limitações específicas da mesma, sem suprimir suas vantagens específicas, conferindo-lhe um caráter mais universal pela sábia utilização de sua particularidade.

SCHILLER, Friedrich. “A educação estética do homem“. Tradução de Roberto Schwarz e Márcio Suziki. Editora Iluminuras. p. 110-11.