Como se escreve: Decolonial ou Descolonial?

 

Estive estudando sobre modenidade e colonialidade, e fiquei intrigado com a questão da utilização dos termos “decolonial e “descolonial” e fui buscar se havia alguma diferença. Encontrei o seguinte:

 

BALLESTRIN, Luciana. Entrevista de Luciana Ballestrin concedida ao site IHU On-Line:

  • “Por sua vez, a expressão “decolonial” não pode ser confundida com “descolonização”. Em termos históricos e temporais, esta última indica uma superação do colonialismo; por seu turno, a ideia de decolonialidade indica exatamente o contrário e procura transcender a colonialidade, a face obscura da modernidade, que permanece operando ainda nos dias de hoje em um padrão mundial de poder.
    Trata-se de uma elaboração cunhada pelo grupo Modernidade/Colonialidade nos anos 2000 e que pretende inserir a América Latina de uma forma mais radical e posicionada no debate pós-colonial, muitas vezes criticado por um excesso de culturalismo e mesmo eurocentrismo devido à influência pós-estrutural e pós-moderna.”

 

COLAÇO, Thais Luzia. Novas Perspectivas para a Antropologia Jurídica na América Latina: o Direito e o Pensamento Decolonial. Florianópolis : Fundação Boiteux, 2012. Disponível em < https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/99625/VD-Novas-Perspectivas-FINAL-02-08-2012.pdf?sequence=1&isAllowed=y >
p.7-8 (nota de rodapé)
  • “Preferimos utilizar o termo “decolonial” e não “descolonial”. O conceito em inglês é decoloniality; sobre esse termo existe um consenso entre os autores vinculados a essa perspectiva de estudo. Já com relação à tradução para espanhol e português não há uma posição unânime. Entretanto, preferimos o termo decolonial, pelos mesmos motivos que Walsh (2009, p. 15-16). A autora prefere utilizar o termo “decolonial”, suprimindo o “s” para marcar uma distinção com o significado de descolonizar em seu sentido clássico. Deste modo quer salientar que a intenção não é desfazer o colonial ou revertê-lo, ou seja, superar o momento colonial pelo momento pós-colonial. A intenção é provocar um posicionamento contínuo de transgredir e insurgir. O decolonial implica, portanto, uma luta contínua.”
WALSH, Catherine. Interculturalidad, Estado, Sociedad: Luchas (de)coloniales de nuestra época. Universidad Andina Simón Bolivar, Ediciones Abya-Yala,: Quito, 2009. Disponível em < http://www.flacsoandes.edu.ec/interculturalidad/wp-content/uploads/2012/01/Interculturalidad-estado-y-sociedad.pdf >
p.14-15 (nota de rodapé)
  • “Suprimir la “s” y nombrar “decolonial” no es promover un anglicismo. Por el contrario, es marcar una distinción con el significado en castellano del “des”. No pretendemos simplemente desarmar, deshacer o revertir lo colonial; es decir, pasar de un momento colonial a un no colonial, como que fuera posible que sus patrones y huellas desistan de existir. La intención, más bien, esseñalar y provocar un posicionamiento –una postura y actitud continua– de transgredir, intervenir, in-surgir e incidir. Lo decolonial denota, entonces, un camino de lucha continuo en el cual podemos identificar, visibilizar y alentar “lugares” de exterioridad y construcciones alternativas.”
Do site CECIES “PROYECTO: DICCIONARIO DEL PENSAMIENTO ALTERNATIVO II. Artigo: PENSAMIENTO DESCOLONIAL/DECOLONIAL[1]. Disponível em < http://www.cecies.org/articulo.asp?”id=285 >
  • “Se aceptan por lo general las dos anotaciones. En las publicaciones argentinas ha prevalecido el uso de “descolonial” mientras que en el resto de lo usual es encontrar el galicismo “decolonial”.”
CASTILHO. Natalia Martinuzzi. Pensamento descolonial e teoria crítica dos direitos humanos na América Latina: um diálogo a partir da obra de Joauín Herrrera Flores. (Dissertação). São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2013. Disponível em < http://biblioteca.asav.org.br/vinculos/00000A/00000A6C.pdf >
p.12-13 (nota de rodapé)
  • “A opção pelo termo “descolonial” e não “decolonial” no decorrer da pesquisa decorre não só de uma opção terminológica mas reflete uma escolha teórica e política da autora no que tange ao conteúdo político e epistemológico da discussão que envolve a utilização de um termo ou de outro no bojo desse campo de estudo. Para os autores que sustentam a necessidade de utilização da expressão “decolonial”, como Catherine Walsh, o prefixo “des” indicaria que os objetivos dessa corrente estariam sintetizados somente por meio da superação do colonialismo. Entretanto, no sentido político e estratégico, reconhece-se que a utilização do termo “descolonial” é mais utilizada nos artigos científicos traduzidos para o português de autores que utilizam a expressão “descolonização” não como simples superação do colonialismo, mas como síntese de uma ferramenta política, epistemológica e social de construção de instituições e relações sociais realmente pautadas pela superação das opressões e das estruturas que conformam uma geopolítica mundial extremamente desigual. Considera-se a utilização do prefixo “des” como estratégica porque, dada a baixíssima utilização desses autores e desse campo de estudo no campo jurídico, é necessário considerar de que maneira tais autores vem sendo traduzidos para a língua portuguesa. Apesar dessa ressalva estratégica, destaca-se que o debate em torno da “decolonialidade” ou “descolonialidade” é extremamente relevante e deve ser introduzido e aprofundado conforme as ideias e discussões vão se tornado mais presentes para a literatura jurídica brasileira.”
RESENDE, Ana Catarina Zema de. Direitos e Autonomia Indígena no Brasil  (1960 – 2010): uma análise histórica à luz da teoria do sistema-mundo e do pensamento decolonial. (tese). Brasília: UnB, 2014. Disponível em < http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/17769/1/2014_AnaCatarinaZemaDeResende.pdf >
p.52-53 (nota de rodapé)
  • “Eduardo Restrepo e Axel Rojas explicam que, da mesma forma que é preciso fazer uma distinção analítica entre colonialismo e colonialidade, não se deve também confundir descolonização com decolonialidade. Por descolonização entende-se o processo de superação do colonialismo, geralmente associado às lutas anticoloniais no marco dos Estados que resultaram na independência política das antigas colônias. A decolonialidade refere-se ao processo que busca transcender historicamente a colonialidade e, de acordo com estes autores, supõe um projeto com um projeto mais profundo e uma tarefa urgente para o nosso presente de subversão do padrão de poder colonial (2010, p. 16 – 17). Nesta tese, adota-se a expressão descolonização (em itálico) no sentido de decolonialidade, pois é a expressão usada pelo movimento indígena de alguns países da América Latina e que aparece na Constituição Política do Estado Plurinacional da Bolívia de 2009.  Para se referir ao processo histórico de independência dos países Latinoamericanos que teve início no final do século XVIII e na África e Ásia ao longo do século XX, usamos o termo descolonização sem o itálico. “
MARTINS, Paulo Henrique. O ensaio sobre o dom de Marcel Mauss: um texto pioneiro da crítica decolonial. In: Sociologias,  Porto Alegre ,  v. 16, n. 36, p. 22-41, Aug.  2014 .. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/soc/v16n36/1517-4522-soc-16-36-0022.pdf >.
p.23 (nota de rodapé n.2):
  • “O termo decolonial não é unânime. Por exemplo, Dipesh Chakrabarty et al (2007, p. 3) o consideram ambíguo, porque exigiria, segundo eles, uma libertação completa do colonialismo. Eles preferem falar de hybridizing encounter. Alain Caillé observa que muitas dessas críticas são negativas, sem fornecer oportunidades para a reconciliação (Caillé, 2010, p. 51). De nossa parte, acreditamos que essas críticas são legítimas. O desafio central não é romper com a sociologia moderna, mas libertar o que foi reprimido pela colonização. Parece justo dizer que o pensamento decolonial é a tarefa de desconstrução do poder e do conhecimento, seguido da reconstrução e/ou do surgimento de outras formas de poder e conhecimento.”
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E, em outra discussão, um comentário interessante com relação à ideia de “crítico”, p.26 de: http://www.unsa.edu.ar/histocat/hamoderna/grosfoguelcastrogomez.pdf
  • “Presupongo que el pensamiento decolonial es crítico de por sí, pero crítico en un sentido distinto del que le dio Immanuel Kant a la palabra y del que, en esa tradición, retomó Max Horkheimer a través del legado marxista. “Decolonial” es el concepto que toma el lugar, en otra genealogía de pensamiento (que es uno de los objetivos de este artículo), del concepto “crítico” en el pensamiento moderno de disenso en Europa. Esta distinción —que motivó precisamente el encuentro en Duke al que aludiré enseguida— se verá más claramente en el resto del argumento. El proyecto decolonial difi ere también del proyecto poscolonial, aunque, como con el primero, mantiene buenas relaciones de vecindario. La teoría poscolonial o los estudios poscoloniales van a caballo entre la teoría crítica europea proveniente del postestructuralismo (Foucault, Lacan y Derrida) y las experiencias de la elite intelectual en las ex-colonias inglesas en Asia y África del Norte.”
  • Maira Conde

    “Parece justo dizer que o pensamento decolonial é a tarefa de desconstrução do poder e do conhecimento, seguido da reconstrução e/ou do surgimento de outras formas de poder e conhecimento.” Para mim foi a síntese mais adequada para a duvida entre o uso de decolonização e descolonização.

  • Ianque patife

    Esclarecedor!!